A conversa sobre espíritos me fez refletir sobre muitos assuntos. Um deles, nossa amizade. O que antes me parecia algo natural, hoje creio que ela vem de outras vidas. Assim que nos conhecemos ela não sabia nada a meu respeito, só sabia que sentia enorme antipatia pelo que eu aparentava ser. Para mim ela era apenas mais uma aluna na aula de jazz.
E daí que ela é sobrinha de Léo Áquilla? Pensava eu, quando alguém vinha me falar dela.
Essa antipatia aos poucos foi desaparecendo ao longo de nossa limitada convivência. Assim sendo, a vida nos colocou lado a lado numa viagem de oito horas, num ônibus onde todos (inclusive nós) queriam/ precisavam dormir.
Difícil explicar o que essa viagem nos proporcionou, senão falar a descoberta de uma incrível afinidade. Simplesmente, a conversa fluiu involuntariamente durante as oito horas. Involuntariamente porque a princípio tínhamos a intenção de dormir – e deixar os outros dormirem. O que, de fato, não ocorreu pois não conseguíamos parar de falar.
Fui percebendo o quanto ela era diferente de mim e ao mesmo tempo o quanto éramos iguais. Ela vivia num mundo que não era o meu, mas me interessava entender um pouco mais daquele universo. E eu, bom, não sei dizer o que ela notou em mim para desejar a amizade. Talvez não tenha uma razão. A sintonia é inexplicável. A partir daí não nos desgrudamos mais.
Brigas, semanas sem se falar, shows sem uma olhar na cara da outra.. Me fizeram sofrer, sim, mas são nessas horas que a gente percebe a inteligência do ditado “Deus escreve certo por linhas tortas” e entende o quão certo foi tudo isso. Entende o por que de tudo isso. Conciliação, aprendizados indescritíveis. Um dos quais – que eu considero o mais importante -, a valorização. Aprendemos muito uma com a outra e principalmente a nos darmos valor – tanto a si própria quanto pra outra.
Hoje não ficamos mais sem se falar, muito menos sem olhar nos olhos, e a cada briga – agora vejo que, todas construtivas – uma lição.
Por tudo isso, que a única coisa que posso pensar a respeito daquela menina que, de início, era apenas mais uma pra mim e tinha aversão a minha pessoa é que essa sintonia, incapaz de ser traduzida em palavras, vem de outras vidas.